Tente outra vez: misantropego.blogspot.com.
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“O homo rapiens é apenas uma entre muitas e muitas espécies, e não obviamente merecedora de ser preservada. Mais tarde ou mais cedo, estará extinta. Quando tiver partido, a Terra se recuperará. Muito depois de terem desaparecido os últimos traços do animal humano, muitas das espécies que ele está empenhado em destruir ainda continuarão aqui, junto com outras que ainda irão despontar. A Terra esquecerá a humanidade. O jogo da vida seguirá.”
(John Gray, “Cachorros de palha”)
Chuva numa manhã de sábado faz bem por dar a sensação de que toda a merda da semana que passou está sendo bem lavada. (Mesmo que, na maioria das vezes, só produza ainda mais lama.)
E então os astrônomos mandaram Plutão para a pluta que o pariu.
Às vezes acho que deve ser muito ruim estar morto, mas então lembro que estive por um zilhão de anos não-vivo, desde o surgimento do Tempo até o dia 19 de dezembro de 1980, ou talvez uns sete meses e meio antes, no momento, no qual não gosto muito de pensar, em que fui concebido. E não era ruim. Então, bem, estar morto, ou não-vivo, não seria uma novidade tão grande assim. Nem tão ruim. Ashes to ashes, dust to dust. Só espero que todo esse pó não ataque a minha rinite.
Discos que consigo ouvir: “River by reverse”, Elvis Costello and Allen Toussaint; “Wreck your live”, Old 97’s; “Rabbit fur coat”, Jenny Lewis with the Watson Twins.
Livros quase no fim: “Por que almocei meu pai”, Roy Lewis; “Socialismo para milionários”, George Bernard Shaw; “Sonhos de Einstein”, Alan Lightman.
Lugares onde eu gostaria de estar: A bordo da Enterprise; Caronte, a lua de Plutão; longe.
“Esta é a pior época da história em pelo menos um aspecto. Existe menos inocência. Nós já surgimos como os ‘não-inocentes’, por pura agregação.” (Martin Amis)
E, como eu dizia…
…”Stan Lee”, e o que eu encontrava debaixo do travesseiro, além do suor e dos ácaros, era um pouco de ingenuidade, de inocência, de surpresa. Isso alivia qualquer dor, mas é menos acessível que uma dose de morfina.
(Quem se importa? Estamos em tempos de Prozac.)
O último fim de semana, novamente, foi o fim.
Assim que saí de casa, fui seqüestrado por uma febre armada que me aguardava na esquina. Antes de me amarrar na cama, ela me deu centenas de socos no estômago, tapas na cara e porretadas nas pernas. Fiquei o resto do sábado dopado, tendo alucinações, com a certeza de que eu era um fabricante de nomes hiperativo, porém frustrado. Mas, no momento em que finalmente abri os olhos, na manhã de domingo, o único nome - próprio – do qual conseguia me lembrar era “Stan Lee”.
Quando a febre voltava para me atacar, com todos os seus instrumentos de tortura, eu pensava “Stan Lee” e me sentia bem. “Stan Lee”, e eu era transportado para um mundo sem problemas, sem dor, sem febre. “Stan Lee”, e eu me acomodava num mundo sem razão, mas, por isso mesmo, mais feliz.
(Este post poderia se chamar também “Pensando num universo de super-heróis humanos, demasiado humanos, com a cabeça, encharcada de suor, enfiada debaixo do travesseiro, numa manhã de domingo.”)
“I don’t mind you coming here, wasting all my time.”
Esse é o primeiro verso de ”Just what I needed”, canção dos Cars, gravada em 1977, mas um hino pessoal dos primeiros anos desta década de 2000. Era uma época estranha, especialmente estranha, talvez um chamado atrasado da adolescência, quando meu ideal de felicidade era estar ao lado de amigos, driques e cigarros numa eterna festa new wave. Eram tempos realmente esquisitos: atualmente, só faço questão dos drinques.
Havia uma outra música dos Cars, “Let’s go”, cujo refrão me animava durante aquele período: “I like the nightlife, baby”. Mas era, mais ainda, um gigantesco auto-engano. Apesar de, talvez, ter a impressão de estar me movendo em estéreo, eu vivia trancado em casa, ouvindo rocks idiotas e achando que gostava da vida noturna; quando, vez ou outra, resolvia encarar a noite, no entanto, dava meia-volta, saía correndo, pedindo socorro à mamãe, procurando o interruptor e implorando por um copo de milkshake.
Mesmo depois de esse equivocado estado de espírito ter descido enlameado pelo ralo, a música dos Cars, independente de todos os seus sintetizadores e power chords, não se desfez com os baldes de água fria. Principalmente “Just what I needed”, que, para mim, ainda é a canção pop mais perfeitinha (pois, principalmente no pop, não existe “perfeição”, apenas “perfeiçãozinha”) de todos os tempos. Ela, afinal, apesar de tudo, não me enganou: berrava no refrão que precisava de alguém a quem alimentar para, em seguida, se corrigir e assumir que, na verdade, precisava mesmo era de alguém para sangrar. A mesma “Just what I needed” que deixou aquela época estranha bem gordinha pegou um facão e degolou aqueles dias esquisitos. Rendeu um bom guisado, pelo menos. E era tudo o que eu precisava.